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A eleição dos adjetivos, aspas e sentimentos regados a ódio

A eleição encerrada ontem será daquelas a se comentar ao longo dos próximos vários anos. Por várias razões simbólicas, dentre elas o contraditório fato de ter sido vencida por uma Dilma mais a esquerda poucos dias depois de o país ter escolhido um Congresso mais a direita. Mas as razões dessa e de outras contradições certamente encontrarão explicação bem antes deste outubro.

Há doze anos o Brasil começou um processo lento de mudança. Melhorou significativamente a distribuição de renda, combateu fortemente a miséria e a fome, gerou empregos e aumento a renda da maioria dos trabalhadores. Tudo isso acabou mudando pra melhor a vida das pessoas da porta de suas casas pra dentro. O problema é que da porta pra fora as coisas continuaram difíceis, como com os problemas de mobilidade, saúde e educação.

A melhora na qualidade de vida dentro das casas desse povo não evitou o crescimento progressivo da insatisfação frente a qualidade dos serviços públicos e aí vieram as manifestações do ano passado. Esse talvez tenha sido o momento mais importante do país nas últimas décadas. Pelo campo popular, tais manifestações fizeram brotar a semente de demandas reais, como programas consistentes e reformas essenciais, como a política.

O problema é que pelo campo conservador a semente recolhida de tais manifestações foi muito menos nobre. A direita entendeu que o ódio percebido naquela população que ia às ruas poderia ser canalizado. E assim o fizeram, usaram sua principal militância, qual seja, os grandes veículos de comunicação, para fazer esse ódio caminhar em direção ao PT. Em parte isso deu certo, muita gente boa do PT foi abatida e ficou pelo caminho.

Se pararmos para avaliar, nem na eleição de 2006, permeada pelas denúncias do mensalão, o ódio contra os petistas foi tão profundo. Isso não é espontâneo. Isso nasceu, cresceu e foi alimentado conscientemente pela direita por meio de seus instrumentos. Senão, vejamos se há algum grau de racionalidade nisso analisando algumas das pérolas constantemente lidas entre aspas ou por meio de adjetivos:

. A “burrice” do eleitor brasileiro: as mesmas pessoas que reelegeram um governador responsável pelo desabastecimento irresponsável de água na região metropolitana de São Paulo, que mantém uma educação falida com a famigerada aprovação automática, que faz acordo com o PCC pra evitar rebeliões, que mantém um modelo de concessão de estradas responsável pelas maiores tarifas de pedágio do mundo, essas mesmas pessoas que deram a essa turma a possibilidade de governar o estado pela sexta vez consecutiva chama os eleitores de Dilma de burros e desinformados. E o próprio FHC é quem reitera isso. Pode? Pois é, aqui em São Paulo pode.

. O Bolsa Família e as eleições no Nordeste: o nível de desinformação do pessoal do sul maravilha em relação ao Nordeste brasileiro é assustador. Talvez só não seja maior que o preconceito alimentado por essa ignorância. Pra ficar em poucas palavras e nem me alongar por aqui, apenas vale ressaltar que o ritmo de crescimento da economia naquela região tem sido quatro ou cinco vezes maior que a do restante do país. Entre 2002 e hoje a quantidade de vagas de emprego com carteira assinada quase dobrou por lá. Há em curso um importante processo de industrialização e desenvolvimento ancorado em obras de infraestrutura essenciais, como as que tem garantido água por lá. É tudo isso o que tem garantido as vitórias do PT por lá. O Bolsa Família apenas se soma ao conjunto de ações na região, atendendo aquela parcela ainda não beneficiada com o desenvolvimento nordestino.

. O Brasil vive uma “ditadura”, ou estamos virando uma “Cuba” ou “Venezuela”: aí chegamos ao auge da estupidez. Representantes de uma mesma classe social governaram este país por 500 anos e por termos um governo liderado por um partido de trabalhadores há 12, há quem se julgue habilitado a chamar isso de ditadura. Esses mesmos, insisto, reelegem tucanos em São Paulo há vinte anos, mas não toleram o PT por menos. Talvez seja uma ditadura as avessas, onde a imprensa chapa branca dá lugar a uma outra, de caráter golpista, como no caso da Veja da véspera da eleição. Não dá pra desenvolver muito essa pérola da “ditadura Brasicubana”, tamanha a barbaridade da estória. Façamos assim, se alguém me apontar elementos razoáveis de violação aos direitos a liberdade, informação, expressão, manifestação, produção intelectual, cerceamento do voto, enfim, se alguém tiver algo minimamente razoável a dizer, aí me disponho a responder.

. Os PeTralhas e a corrupção: é inacreditável que as pessoas que fazem esse coro não tenham sequer o trabalho de racionar a respeito. Seria difícil demais perceber o quanto qualquer denúncia feita contra petistas toma proporções de escândalo e julgamento público (de opinião) sumário e quanto, na direção inversa, se protege e blinda os governos do PSDB quanto a esse assunto? E eu é que sou chamado de burro por essa turma.

É óbvio que o combate a corrupção tem que seguir por outros caminhos que não o da execração pública. Reforma política, legislação rígida contra corruptores, pra além dos que se deixam corromper, autonomia para investigação, enfim, há muito sendo feito e muito mais ainda por fazer, mas achar que o PT é essa organização criminosa é mesmo de se lamentar.

E afinal por que então parte dos que não votaram em Dilma continuam carregando tanto preconceito e violência em seus comentários? Bem, é porque esses, dentre outros, são os filhos pródigos do ódio. Aécio galgou sua campanha no antipetismo. Era essa sua principal bandeira: “libertar o Brasil do PT”. Não importa se seu programa econômico nitidamente causaria desemprego e conteria o ganho salarial dos trabalhadores, em nome da ética e da moral era preciso vencer o PT.

Respeito quem seguiu por esse caminho, até porquê não vivemos numa ditadura “brasicubana”. Mas lamento que o precioso momento eleitoral, que poderia ter sido utilizado para o bom debate de projetos, tenha se transformado nessa rinha. E o pior, com o cara que montou o cenário atuando insistentemente como vítima. É de se lamentar.

Encerro dizendo que tenho plena consciência de que viveremos um período difícil. O Congresso eleito é conservador e a economia mundial não vai acordar nesta segunda com um humor completamente novo. Contudo, estou tranquilo em saber que o Brasil escolheu olhar pra frente, não retroceder e continuar na caminhada por um país mais justo.

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