Arquivo

Posts Tagged ‘parto domiciliar’

O nascimento do nosso Francisco

A princípio a ideia, minha e da Rita, era de que esse vídeo fosse algo só nosso. Pra mostrarmos ao Francisco no futuro.
Mas ficou tão lindo e inspirador, que decidimos torná-lo público na esperança de que seja mais uma gota d’água nesse oceano que queremos ajudar a encher.
Domiciliares ou hospitalares, o que importa mesmo é que os partos no Brasil se transformem, que sejam feitos com o devido respeito a quem chega. Com amor e reverência a vida.

Nasceu nosso Francisco: relato de um parto domiciliar humanizado

FranciscoAntes de mais nada, deixo claro que a defesa que faço em relação ao assunto deste texto é a de que mães e filhos devem ter o direito ao acesso a um parto humanizado, seja ele domiciliar ou hospitalar. Entendo ser a cesárea um procedimento que salva vidas, mas que tem sido usado de forma desmedida e desnecessária.

Eu e Rita, minha esposa, só fizemos a opção pelo parto domiciliar porque não encontramos nenhuma possibilidade de o Francisco nascer sem intervenções em um ambiente hospitalar, então decidimos por nossa casa.

Foi tudo tão bem, de forma segura e natural, que resolvi compartilhar a experiência no relato que segue, até como forma de estimular outros casais a também questionarem as “linhas de montagem” estabelecidas em nossos hospitais, onde os riscos para os administradores e médicos são mínimos, mas as intervenções são claramente exageradas.

Segue o relato:

Me desculpem o texto longo, mas queria deixar aqui meu relato do parto do nosso Francisco, que chegou a uma da manhã do dia 7 de fevereiro. Antes disso, eu e Rita mergulhamos em 39 semanas transformadoras. Desde que soubemos da gravidez perdi a conta de quantas e quantas vezes ouvimos de amigos que já tinham filhos que agora nossas vidas iriam mudar. Nunca duvidei disso, mas confesso que não imaginava que essa mudança toda acontecesse já no período de gestação e com tanta intensidade exatamente no dia do parto.
Não dá pra escrever tudo o que eu gostaria sobre as 39 semanas, exigiria uma quantidade de linhas que acho que só os muito próximos se interessariam em ler e este texto perderia então o seu propósito. Aliás, só estou escrevendo-o porque precisamos muito desses relatos pra concluir pelo parto domiciliar. Espero que este sirva de estímulo também a outras famílias.
Considero que eu e Rita somos antes de mais nada humanistas. Eu sempre militei de forma racional nisso, em movimentos de Direitos Humanos, etc. Ela sempre teve um espírito humanista. Suas ações, suas intuições, suas emoções sempre mostraram uma clara vocação humanista, mesmo que ela nem desse muita bola pra isso.
E foi por causa desse espírito humanista que antes mesmo de ela engravidar eu acompanhava de longe movimentos que discutiam o parto humanizado. Então, quando ela ficou grávida uma das primeiras coisas que fizemos foi procurar esses grupos de apoio, encontramos o Ishtar e o Parto de Gente, dois grupos que foram fundamentais para o nosso processo de transformação.
Acho que além dos grupos, foi o filme O Renascimento do Parto e a leitura o que construiu nossa convicção. Mas não foi nada fácil.
A medida em que acumulávamos informação iam surgindo os conflitos entre a realidade e nossos medos. A realidade apontava para a verdade de que não conseguiríamos o parto humanizado que sonhávamos se não fosse em casa, mas nossos medos ainda nos empurravam para um hospitalar.
Me lembro que na primeira ou segunda consulta com a obstetra que começou a acompanhar a gravidez, tratamos de falar do nosso desejo pelo parto normal. A médica disse que isso teria que ser conversado mais adiante, por volta da 36ª semana. Aí veríamos se seria possível o normal. Foi a última vez que a vimos, rs.
Trocamos de médico e esse topava bem a conversa, mas aos poucos fomos percebendo que apesar de entender perfeitamente a fisiologia do parto, insistia em lançar mão de alguns recursos que facilitam a vida dos médicos, nem sempre facilitando a das mães e dos bebês. Mesmo assim, fomos com ele até o final do pré-natal.
E no meio de todas as informações que fomos reunindo durante as 39 semanas veio a inevitável crise. Aquele momento de enfrentar a realidade. Fui o primeiro a achar que estava convencido de que o parto domiciliar era o melhor caminho. Só achei ter sido o primeiro, na verdade ainda não estava convencido.
Aí um dia conversando com a Rita sobre as intervenções que seriam feitas no bebê se o parto fosse hospitalar, ela começou a chorar e a dizer que estava com pena do Francisco, tão pequeno, sem ter como se defender e já tendo que passar por tudo isso. Naquele dia percebi que a semente estava plantada, em algum tempo ela estaria firme na ideia do parto domiciliar.
Foi o que aconteceu. E quando ela estava convencida, foi a minha vez de ter de enfrentar meus medos. Principalmente quando o obstetra, e já estamos falando da 34ª ou 35ª semana de gravidez, nos diz que aceitaria fazer o parto da forma como quiséssemos. Que poderíamos levar nossa própria pediatra, nossa doula e que aceitaria fazer o parto sem utilizar o “sorinho” de ocitocina e a anestesia. A oferta era muito tentadora, mas hoje vejo que foi essa proposta o que nos levou definitivamente para o parto domiciliar, porque fui até um hospital para buscar informações sobre essa possibilidade de parto humanizado hospitalar. Tive que entrar no hospital e só precisei disso. Não precisei nem fazer as perguntas que queria pra entender que ali não era lugar de nascer.
A Rita sequer chegou a ir até algum hospital e novamente quem foi fundamental na formação de sua convicção foram os grupos de apoio. Dali ela tirou sua certeza.
Passado esse trajeto todo, fechamos a equipe , aliás a sensacional equipe, que faria o parto e passamos a nos preparar.
Com 39 semanas e 1 dia de gravidez, fomos ao pré-natal sabendo que o médico pediria para fazer o exame de toque. Sabíamos, tínhamos ouvido diversos relatos negativos a respeito e tudo o mais. Mesmo assim confiamos em nossa relação com o médico. A Rita só pediu a ele que só fizesse mesmo o toque. Ele fez o exame e disse que ela já estava com 3cm de dilatação. Depois que terminou disse que havia rompido a membrana… Sim, tínhamos as informações, sabíamos que muitos médicos tomam as decisões por conta própria e que lançam mão de determinados procedimentos de indução sem consultar ninguém. Mesmo assim concordamos que deixaríamos que ele fizesse o exame, e ele foi além do combinado.
Ficamos sem saber muito o que falar. Ele nos disse que a partir daquele momento ela começaria a ter contrações e que fossemos pra casa e aguardássemos por duas horas, se as contrações passassem, que ficássemos tranquilos, do contrário que poderíamos seguir para o hospital. Ficamos putos, revoltados, mas tudo acabou dando certo porque a equipe que nos acompanharia estava a postos e tudo poderia ser resolvido rapidamente caso o quadro evoluísse mesmo para o parto.
As contrações de fato começaram e não pararam naquele dia. Começaram as 19h, fomos pra casa e rapidamente chegou a Gleise, nossa doula. Ela ficou com a Rita até a manhã seguinte acompanhando a evolução das contrações. Claro que não fomos para o hospital. Por volta das 7h essas contrações começaram a se espaçar e então vimos que ainda não era a hora. Dormimos um pouco e perto do meio dia as contrações começaram a ficar mais próximas e fortes novamente. Pouco depois a Rita já não sairia mais da posição em que se colocou por várias horas. Introspectiva, controlava as dores com a respiração e estava claro que a situação evoluía.
Acho que eram 18h ou pouco mais que isso quando chegou a Priscila, que com a Giovana fariam o parto horas depois. Ela já estava monitorando a situação a distância desde o dia anterior e quando chegou foi direto fazer o toque pra ver como estava a dilatação. Estava completa. Chamou o restante da equipe e disse que Francisco estava a caminho.
Em casa, tínhamos montado tudo para que o parto acontecesse na parte de cima do sobrado. Mas no meio do caminho a Rita foi se aninhando na parte de baixo, entre a sala e o banheiro e dali não sairia tão cedo.
O clima era absolutamente diferente do de um hospital. Conversávamos, ríamos. A essa altura a equipe já estava completa, Giovana, Ariane e Andréa também já estavam conosco.
Em alguns momentos o ambiente ficava descontraído, me lembro de forma mais viva de alguns desses momentos, como quando a Rita resolveu tomar banho de mangueira no quintal. Eu sentado conversando na sala e de repente a vejo brincando como criança com a água no quintal, mesmo com alguma expressão de dor. Também teve um outro momento engraçado quando em meio a uma contração forte a Andréa, pediatra que nos acompanhava, disse a ela algo do tipo: “força Rita, o Joaquim está chegando”. Ela respirou, fez a força que deveria, esperou a contração passar, respirou e disse calmamente: é Francisco, começamos a rir e a Andréa disse: percebi logo que falei, mas não dava para voltar atrás e ficar explicando o erro no meio da contração, né?
Também houve momentos muito íntimos. Na verdade, tenho a certeza absoluta de que nunca estive tão conectado a Rita como nesse dia.
A bolsa só se rompeu por volta das 22h e aí veio o período expulsivo que durou mais de três horas. Não tenho a menor ideia de onde a Rita tirou tanta força. Essa mulher abaixava, levantava, parecia exausta, mas não parava. Quando eu dava as mãos a ela para que segurasse durante as contrações ela já não as apertava mais, acho que só tinha energia pra fazer a força necessária para o nascimento, já não gastava mais nada apertando minhas mãos.
Os minutos finais foram no banquinho, colocado então em nossa sala. Sentado no sofá eu a apoiava por trás e dali, abraçado a ela, vi nascer o Francisco. Assim que ouvi o primeiro choro desabei a chorar e quando olhei pra ela achando que também estava chorando, não…, estava rindo, um riso emocionado, de alívio, de alegria, o riso mais lindo que já vi. Francisco chegou com 4kg e 52cm. Esse tamanhão todo não foi suficiente para que fosse necessária qualquer intervenção agressiva, sem anestesia, sem epísio, sem sorinho. Quem trabalhou mesmo foi a Rita, o Francisco e toda a maravilhosa equipe que nos acompanhou.
Francisco ficou em seu colo por mais uns vinte minutos, até que o cordão parasse de pulsar. Quando isso aconteceu me foi dada a lâmina para contá-lo. Em seguida a placenta se soltou e saiu.
Então a Rita foi até o quarto para receber os cuidados de que precisava. Sim, depois de um parto longo ela simplesmente subiu as escadas e foi para o quarto. Fiquei com o Francisco o tempo necessário e logo em seguida o levei a ela, que já levou-o ao peito.
A equipe ainda permaneceria conosco por mais algumas horas. Fizemos uma macarronada por volta das duas da manhã, comemos e toda a assistência necessária a um parto seguro foi dada.
No final, quando todos se preparavam para ir embora perguntei a Dra. Andréa como deveria colocar o bebê para dormir. No berço? Em que posição? Coisas de pais de primeiro filho. Ela riu e disse para dormíssemos eu, Rita e o bebê juntos, na mesma cama. Eu relutei, falei que poderia rolar durante a noite e machuca-lo. Afinal estava exausto, foram quase duas noites em claro. Ela me disse pra ficar tranquilo e entendi que o instinto paterno não me deixaria machucá-lo. Aquilo tudo me fez virar pai muito rapidamente.
Nos despedimos, a equipe toda se foi e ficamos em casa somente nós três numa indescritível conexão. Sobre isso, gostaria de conseguir explicar melhor, de escrever com detalhes, mas não consigo. É impossível explicar esse elo criado entre nós três naquele momento. Só depois me dei conta de que se estivéssemos em um hospital, provavelmente naquele momento a Rita estaria no quarto, Francisco no berçário e eu feito um louco tentando me dividir entre um lado e outro. Aquele momento de conexão não existiria. Pelo menos não naquela noite. Foram horas incrivelmente intensas e que me fizeram instantaneamente um pai.

%d blogueiros gostam disto: